terça-feira, 3 de setembro de 2024

Nada

            Hoje eu me  lembrei da primeira vez que menti pra você. Você me perguntou se eu tinha cortado o cabelo, eu disse que não. Tava chateada, a gente tinha brigado, eu teria respondido não a qualquer pergunta que você me fizesse.

            Depois a gente fez as pazes, amor, café e uma caminhada na praia. Enfim eu tinha alguém para segurar as minhas coisas quando fosse no mar. E voltar pela areia e ver você embaixo do guarda-sol me esperando, me fez abrir um sorriso. E te dei um beijo salgado, provocativo, na frente de tantas barracas que protegiam famílias com crianças. A gente é ousada no nosso amor.

            Falei pra você que ia dar um último mergulho antes de irmos. Estava angustiada e precisava conversar com o mar. Pedi a ele um conselho sobre o que fazer em relação a gente e ele me disse: NADA. 

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Eu não sou de esquerda, mas deveria

           Primeiro de tudo, eu quero que você saiba que eu escrevo melhor à mão. Contrariando tudo que eu tenho apresentado ultimamente com a mão esquerda, sou destra. E aproveito esta capacidade, não tão inusitada assim, para escrever. Melhor. O digital facilita muita coisa, mas procurar as letras certas junto com os pensamentos que fervilham pode ser uma atividade um pouco mais limitante. E eu não quero que você pense que eu me limito a alguma coisa. A qualquer coisa.

A mão esquerda tá aqui, quietinha, apoiada no papel do caderno para ele não deslizar. A mão esquerda, que ultimamente parou de ficar quieta. E que aprendeu a deslizar tão bem. Porque, apesar dela ter tido outra função ao longo de 41 anos, só há poucos meses ela entendeu que ela podia fazer mais e ser tão importante; que ela ia me representar no meio do seu prazer. Ou do meu prazer. Melhor dizer do “NOSSO” prazer.


E para o nosso prazer, a mão direita precisa dar o apoio para o corpo sustentar na posição. E aí eu preciso dividir a atenção entre o endurance na mesma posição; entre me concentrar enquanto eu ouço seu gemido agudo, quase silencioso; entre a sua covinha no rosto que aparece despretensiosamente perto do gozo; e entre um grelinho que começa tímido, mas que explode um tesão delicioso, que arrepia os pelinhos do mamilo que eu acabei de chupar e me traz uma sensação de prazer inexplicável. 


Uma mão esquerda. Quem diria. Que foi tão tolhida durante toda a vida. Que muitas vezes serviu de apoio da cabeça para momentos de exaustão. Ou só porque não sabia onde colocá-la em público. E você ensinou a função mais nobre. De destaque. E, mesmo que ela não fale em LIBRAS, eu tenho certeza que ela se sente reconhecida em seu papel atual. 


Eu não sou de esquerda, mas deveria. 


quarta-feira, 19 de abril de 2023

Por onde andas?

Eu fiquei dias esperando você aparecer. Toda noite dormia com a promessa de te ter pela manhã seguinte. Acordava e você não estava lá. Por onde andava? Tantos e tantos dias sem te ver. Cansei de esperar. Desisti. Pedi que voltasse. Você fazia promessas vazias e nunca estava. A gente era feliz junto. Eu amava ter você comigo. Mas você sumiu. Não estava mais nos lugares onde a gente gostava de ir. Não estava mais em casa. Por que você fez isso comigo? Foi a pandemia? Foi a rotina? Eu deixei de prestar atenção em você? O que eu posso fazer para você voltar pra mim de vez, meu ânimo?

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Roupa de cama

 Era uma família estranha: não combinavam a fronha com o lençol.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Não foi por falta de tentativa

Eu tentei. Fui tentando todo dia um pouquinho, cada vez mais, depois cada vez menos até que acabou. Fui além do que me era costumeiro quando eu aceitei sair com você a primeira vez. Por conta da pandemia e por atitudes antissociais antes dela, tinha tempo que não aceitava sair com alguém. Mas aceitei seu convite. Aceitei antes todas as mensagens que trocamos durante 03 meses de flerte, paquera, nude, bom dia, fotos de paisagem, você falando do vinho que tinha ido beber na casa da fulana. Eu já estava íntima antes de te olhar. E olhei com medo de também ser olhada. Acho que isso me manteve ligada durante o tempo que nos gostamos.

Eu tentei. Tentei demais. Superei o dia que você não pode falar comigo porque passou o dia assistindo o depoimento da doutora blogueira na CPI porque depois você ia escrever sobre esse momento. Era seu dia de plantão. Eu respeitei. Até assisti 5 minutos antes de achar tudo aquilo chato demais e para poder comentar algo no grupo do zap. Eu tentei mais do que podia, mais do que aceitava, mais do que achava normal na nossa convivência. Eu me apaixonei.

E eu tentei passar por tudo isso como se não fosse nada, como se fosse tudo, como se a vida acabasse na esquina a cada ida de máscara na padaria. A pandemia nos afastou e nos aproximou. É verdade que se a gente tivesse uma vida social normal, não tinha durado 2 meses. Eu enganava meus amigos dizendo que você era legal, que tinha uns papos muito cabeça e que em você eu encontrei meu centro. Balela. Todos os momentos que eu passei com você eu só queria que você se calasse e me comesse com vontade na mesa do home office, com a câmera ligada durante suas calls. Eu queria que você me exibisse. Mas você me aprisionou.

Eu tentei, mas acabou. Acabou o tesão, acabou o saco, acabou a vontade, a pandemia – acabou. Acabou nosso não-entrosamento, as viagens clandestinas de carro, os hotéis na beira da praia deserta, só a gente e seu livro de 487 páginas. Acabou. E acabou naquele momento que você palestrou sobre meus absorventes internos no meio ambiente enquanto enterrava sua menstruação no jardim do prédio. Fim definitivo.

terça-feira, 5 de junho de 2018

Papo de mãe

Hoje a minha mãe, católica-apostólica-romana, mega carola, que frequenta a missa das 8:00 todos os domingos proferiu a seguinte frase:

 - Já troquei de lugar duas vezes pra não ter que dar Paz de Cristo pra vizinha do 401. Principalmente quando é aquele padre que manda abraçar em vez de apertar a mão. Agora vê se eu vou dar Paz de Cristo pra uma pessoa que não me dá nem bom dia no elevador do prédio?!

Significa...

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Resumo da vida

Resumo do que é estar resfriada durante uma crise de coluna: um espirro, uma pinçada no ciático...